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publicado por yago
23.01.2020
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A verdadeira história da descoberta de Chicama.
Contada mais de 50 anos depois por um de seus protagonistas.

A verdadeira história da descoberta de Chicama.

Autor: Carlos -El flaco- Barreda.

Escrito e publicado em 4 de janeiro de 2020.

Essa história começa no final do verão de 1966, quando conhecemos Chuck Shipman. Ele era um surfista que morava no Havaí e participou de um dos torneios internacionais organizados pelo Waikiki Club. Ele não era um grande competidor, mas tinha outras qualidades, como ser muito entusiasmado, conversador e criamos uma amizade sincera. Ele ficou muito interessado no Peru, em nossa história e cultura; tanto que ele decidiu ficar mais alguns meses quando após o termino do evento e acabou ficando em nossa casa, a pedido de minha mãe Dona Sonia.

Ela gostava da ideia de hospedar um conhecido surfista estrangeiro que queria ficar alguns meses em nosso país. Assim, tivemos o ano de 1964 em nossa casa o surfista Peter Troy, que naquele ano fora campeão da Austrália e foi convidado a competir no Peru Internacional. Peter, fazendo um pequeno parêntese, foi nada mais que o descobridor de Punta Rocas. Lembro-me de que quando ele foi eliminado da sua bateria no Big Wave em Kon-Tiki, ele começou a remar para o sul cerca de um quilômetro e ficou na frente de um novo pico, que tinha ondas maiores e paredes muito mais longas, que se estendiam até a praia de Punta Negra.


Muitos dos espectadores deixaram Kon Tiki e o seguiram pela praia. Ficamos impressionados com as ondas que ele conseguiu  pegar naquele dia, em uma nova praia que até então nunca alguém surfado por ser considerada muito perigosa, principalmente  por causa das grandes rochas que estavam na praia. Lembrando que o Leash ainda não havia sido invesntado e se você perdesse sua prancha, ela iria diretamente para as rochas. Um ano depois, o famoso Torneio Mundial de Punta Rocas de 1965, que foi vencido por nosso primeiro campeão mundial Felipe Pomar, foi comemorado nesta nova praia.

Voltando a Chuck, o havaiano, depois de ficar conosco por cerca de 6 meses, retornando para casa em um voou beirando à nossa costa, ficou surpreso com a quantidade de ondas  que quebravam em várias praias, mas uma onda chamou sua atenção por ser  muita longa e perfeita que começou em um ponto e se estendeu para a esquerda dentro de uma baía por vários quilômetros, até chegar a um longo píer.  Alguns dias depois de chegar ao Havaí, ele já estava nos escrevendo uma carta, acompanhada de um esboço, onde estava muito animado para nos contar sobre sua descoberta e nos encorajou a sair o mais rápido possível para encontrar a onda perfeita que ele avistara do avião.   Ele não sabia muito sobre sua localização, mas calculou que estavam a cerca de 40 minutos de vôo ao norte de Lima e perto de uma cidade relativamente grande, que ele não conseguiu identificar.

 

Chuck Shipman, no centro da cidade, com sua namorada e o autor (o magro Barreda) à direita. À sua esquerda, aparece o Grisolle preto e o gordo Barreda. No Makaha Club de Miraflores.

Como ainda não tínhamos carro naquela época, a primeira tarefa era incentivar alguém que o tivesse a embarcar na aventura de procurar essa onda de sonho em nossa extensa costa norte; calculamos que teria de ser entre Chimbote e Chiclayo, durante o tempo de voo referido por Chuck.

Bertrand Tazé, um amigo de origem francesa, foi incentivado a sair, mas seu currículo no Citroneta 2 não era garantia de alcançar nosso objetivo. Era um carrinho super leve e antigo, na categoria de um Tico, mais paredido com uma moto do que um carro. Quando Carlos Aramburú se juntou a nós, a Trip se tornou mais viável; Ele tinha um Volkswagen Beetle novinho em folha, capaz de entrar em qualquer praia, mesmo através de uma praia arenosa.

 Protótipo Citroneta 2 CV, semelhante ao que nos levou a Puerto Chicama nesta viagem.

 

A tripulação incluía Ivo Hanza, irmão mais novo do “gringo Hanza”, que desfrutava igualmente em um olon de alto pico como em um rulito de Cerro Azul. O lendário Malpartida “chinês”, naqueles anos um erudito intrépido que conquistara o respeito da elite dos surfistas de Lima por não se deixar intimidar por qualquer tipo de onda. O sexto tripulante foi Fernando Garrués, surfista com menos anos no mar, amigo de Carlos Aramburú, que conhecemos melhor durante a viagem e que conseguiu integrar perfeitamente o grupo.

 

Sem muito pensar, já estávamos na rota para o norte e a primeira parada foi na praia do Bermejo. Lá, rodamos algumas horas e acampamos à noite no calor de uma fogueira, aquecendo-nos lá dentro com alguns cobertores para dormir melhor, porque naquela praia geralmente soprava um vento gelado.

 

 

Toda a equipe dormiu em Bermejo na primeira noite, a caminho de Chicama. Da esquerda para a direita, Malpartida, Bertrand Taze, Ivo Hanza, Carlos Aramburu, Fernando Garrués e a magra Barreda. (autor desta nota)

Na manhã seguinte, seguimos para o norte, não sem alguns obstáculos; Lembro-me, por exemplo, de que, ao chegar a uma colina, a Citroneta, carregada com nossas roupas e com três pranchas no teto, não subia mais nem no começo. Tivemos que descer para diminuir o peso, mas como não foi suficiente, acabamos empurrando o carro para ajudar o motor que não dava mais. E isso foi repetido várias vezes no dia . Depois de passarmos por Chimbote, chegamos a Virú, onde pudemos ver que ela estava indo em direção a uma entrada, formando uma baía onde uma onda poderia quebrar como o descrito por nosso amigo havaiano. Animados, saímos da estrada e seguimos para uma trilha em busca da onda tão esperada, mas quando chegamos à praia só foram vistos rostos de decepção. Um pequeno pote à esquerda estava estourando em Virú, mas não era grande coisa; Tivemos ondas melhores em Bermejo e ficou claro que não era a onda perfeita que estávamos procurando. Então, depois de tirar algumas fotos e descansar um pouco, continuamos em direção ao norte.

Ao passar por Trujillo, ficamos impressionados mas ainda com algumas dúvidas; Essa era provavelmente a cidade que Chuck tinha visto do avião. Huanchaco não seria a praia que ele viu? Aí quebra uma boa onda para a esquerda, terminando perto do píer e um dia de grandes ondulações pode parecer gigante de cima. Mas aquela praia já era conhecidahá muitos anos e não era a onda de sonho que havíamos procurado.

Portanto, não desanimamos e seguimos para o norte, perguntando em cada cidade que chegavamos qual era a  praia onde as ondas quebram sem parar. Ao chegar à cidade de Paiján, a cerca de 50 km ao norte de Trujillo, nossas perguntas deram frutos. Alguns habitantes locais nos informaram que havia uma praia como a que estávamos procurando; Chamava-se Puerto de Malabrigo e só tivemos que nos desviar da estrada em Paiján, seguindo uma estrada de terra empoeirada por cerca de 30 minutos em direção ao mar, para chegar ao nosso destino, também conhecido como Puerto Chicama, porque era no vale do rio Chicama.

Nossos olhos se iluminaram novamente quando ouvimos essa notícia; Tínhamos certeza de que agora, se estivéssemos perto do nosso destino, a emoção era grande porque todos sentíamos que a onda perfeita que procurávamos quase cegamente já estava ao nosso alcance.

Atravessamos a pequena cidade sem parar e seguimos em direção à praia, entrando na areia com os carros. À medida que avançávamos, nosso espanto crescia e, depois de alguns minutos, ninguém mais falava; apenas gritos e uivos foram ouvidos; Entramos em um estado de verdadeira euforia. Não é verdade, como li recentemente em uma história sobre a descoberta de Chicama, que as ondas eram pequenas naquele dia. O oposto; uma série interminável de ondas de até dois metros entrava em perfeita formação a partir da ponta, enrolada por um forte vento, formando um veludo de algodão que se estendia até onde podíamos ver. A onda nunca se fechou, mas estava se acelerando e aumentando de tamanho, à medida que se aproximava da seção da cidade onde estávamos.

 

Algo assim foi o que vimos, no meio de gritos de euforia, no primeiro dia em que chegamos a Puerto Chicama.

Quando nos acalmamos e os gritos pararam, percebemos que havíamos conseguido; que a história daquela onda perfeita e interminável que o havaiano vira era verdadeira. Não demorou muito para pegarmos nossas pranchas e nos jogarmos para experimentar aquelas ondas de sonho. Logo percebemos que a onda não só parecia boa, mas extremamente longas, fazendo todo tipo de manobras e, finalmente, um tubaço nas últimas seções.

Ivo e eu éramos os cinegrafistas do grupo e nos revezávamos para gravar as imagens com uma câmera antiga de 8 mm que sempre nos acompanhava. O problema era que essa câmera usava rolos que duravam apenas 5 minutos e, como as ondas eram tão longas, terminavam rápido demais e tínhamos apenas meia dúzia de rolos. Só podíamos filmar as melhores ondas; os chineses conseguiram entubar várias vezes na mesma onda, de pelo menos 2 metros.

Ivo Hanza e o autor desta história, gravando as primeiras imagens das ondas de Chicama, na mítica Citroneta de Bertrand Tazé, no inverno de 1966.

Depois de vários dias, com memoráveis ​​sessões de surfe, nas quais todos conseguimos pegar ondas que nunca esqueceríamos, finalmente a ondulação estava desaparecendo e era hora de voltar. Como não havia dias de celular ou internet naqueles dias, as notícias da descoberta de Chicama vieram conosco quando chegamos a Lima.

 

Alguns dos nossos amigos nos chamaram de exagerados, contadores de histórias ou mentirosos quando contamos a história de Chicama. Mas logo começaram a acreditar quando eles viram as fotos e, especialmente, o filme sobre a descoberta de Puerto Chicama, que apresentamos no Waikiki Club cerca de dois meses depois, apenas rolos de 8 mm chegaram. Naquela época, esses filmes tinham que ser enviados para os EUA ou Panamá por correio para serem revelados.

Alguns dias após essa apresentação, carros e vans cheios de pranchas foram rumo a Chicama, que em pouco tempo se tornou um dos destinos favoritos dos surfistas. Quando havia feriados prolongados era possível encontrar em Puerto Chicama grande parte dos conhecidos surfistas por lá.

Décadas se passaram e essa história pode parecer um pouco antiga. Agora, a maioria dos surfistas preferem ir às praias com a água mais quente como Máncora, Lobitos, Cabo Blanco, mais ao norte. Mas para nós foi uma grande aventura e uma experiência que nunca esqueceremos.

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